Na Câmara Municipal de Santa Rita, um espetáculo digno das melhores peças de teatro foi encenado sem direito a plateia. Entre atos de silêncio e cortinas cerradas, o grupo conhecido como G10 decidiu, sem muitos olhares indiscretos, presentear alguns felizardos com salários que fariam inveja a muitos trabalhadores de ofícios essenciais. O enredo? A criação de novos cargos comissionados e uma generosa escalada salarial, com cifras que poderiam compor um enigma matemático digno de um vestibular concorrido.
O protagonista da noite foi o aumento que pode elevar o salário de um procurador-geral ou contador-geral de R$ 12 mil para inacreditáveis R$ 24 mil, caso sejam aplicadas as novas gratificações. Enquanto isso, a plateia de servidores públicos concursados, que trabalham anos a fio com reajustes medíocres ou inexistentes, observa estupefata. O que antes parecia uma mera sessão legislativa se revelou um banquete de privilégios, temperado com a ausência de transparência. Afinal, quem precisa de espectadores quando o roteiro já está escrito nos bastidores?
Enquanto vereadores da base do prefeito Jackson (PP) encenaram sua saída em protesto, prometendo recorrer ao Ministério Público, os membros do G10 seguiram firmes no propósito de reescrever as regras do jogo político local. Sob o comando do presidente Epitácio Viturino, a Câmara viu seu quadro de cargos comissionados inflar para 136, distribuídos generosamente entre assessores, chefias e assistentes de comissão. Os vencimentos variam, mas o espírito da generosidade permeia toda a nova legislatura. Afinal, por que se contentar com R$ 12 mil quando se pode dobrar esse valor?
No entanto, a matemática da indignação popular é simples: como justificar vencimentos superiores aos dos próprios vereadores, que já recebem robustos R$ 18 mil? Como sustentar uma estrutura inchada em um país onde tantos lutam para garantir o básico? A resposta, para os personagens dessa tragicomédia, parece estar na arte do silêncio.
A ausência de transmissão da sessão foi um detalhe estratégico. O público, aquele que deveria fiscalizar os passos dos representantes eleitos, foi mantido à margem. A transparência, que deveria ser a base da democracia, foi eclipsada pelo véu do sigilo. Quando as luzes se apagam, fica mais fácil rearranjar as cadeiras do poder.
Resta agora à população o papel de espectador indignado ou protagonista da mudança. Será que Santa Rita continuará assistindo passivamente ao grande baile das cadeiras douradas, ou finalmente levantará a cortina para exigir explicações?
