Coxixola, uma das menores cidades da Paraíba, entrou para o mapa nacional não por uma grande obra, não por uma política pública inovadora, não por resolver os problemas provocados pela estiagem, mas por contratar um show de Wesley Safadão ao custo de R$ 1,3 milhão.
A conta é simples e constrangedora: considerando uma população aproximada de 1.800 habitantes, o cachê equivale a cerca de R$ 720 para cada morador do município. É como se cada cidadão de Coxixola, incluindo crianças, idosos e famílias da zona rural, bancasse individualmente uma entrada caríssima para uma festa paga com dinheiro público.
O caso se torna ainda mais grave porque Coxixola vive sob situação de emergência reconhecida pelo Governo Federal em razão da estiagem. A própria Defesa Civil Nacional reconheceu a condição do município, permitindo que a prefeitura solicite recursos para ações como compra de cestas básicas, água mineral, refeições, kits de limpeza, higiene pessoal e itens de apoio à população afetada.
Mesmo nesse cenário, a Prefeitura decidiu apostar numa festa milionária. Segundo levantamento divulgado pelo Jornal da Paraíba, os gastos previstos com a festa de emancipação política passam de R$ 2,5 milhões, incluindo R$ 1,3 milhão apenas para Wesley Safadão, R$ 1,07 milhão em estrutura de palco e som, R$ 160 mil para Japãozin e R$ 50 mil para Fabiano Guimarães.
É o tipo de decisão administrativa que revela uma inversão completa de prioridades. Enquanto a população enfrenta os efeitos da estiagem, a prefeitura transforma a festa em vitrine política. Enquanto comunidades rurais dependem de abastecimento, carros-pipa, poços e ações emergenciais, o poder público escolhe gastar uma fortuna para garantir palco, som e artista nacional.
O Ministério Público de Contas da Paraíba enxergou o óbvio e pediu ao Tribunal de Contas do Estado a suspensão dos pagamentos relacionados ao evento. Na representação, o MPC apontou que a despesa é, em análise preliminar, “manifestamente desproporcional” à realidade orçamentária e financeira do município, sobretudo diante das necessidades prioritárias da população e da situação excepcional enfrentada por Coxixola.
A prefeitura tenta se defender dizendo que os recursos viriam de convênio com o Ministério do Turismo, sendo R$ 1.298.700,00 do Governo Federal e apenas R$ 1.300,00 de contrapartida municipal. Mas esse argumento não resolve o problema. Dinheiro federal também é dinheiro público. E dinheiro público, venha de onde vier, deve obedecer ao princípio da razoabilidade, da moralidade e da prioridade social.
O debate, portanto, não é contra festa, cultura ou entretenimento. O problema é gastar R$ 1,3 milhão com um único show numa cidade pequena, em situação de emergência, com demandas básicas ainda mais urgentes. Cultura é importante, movimenta a economia e merece incentivo. Mas festa nenhuma pode valer mais do que o bom senso.
Coxixola não precisava virar notícia por ostentação administrativa. Precisava virar exemplo de responsabilidade com o dinheiro público. Num município de 1.800 habitantes, gastar R$ 1,3 milhão com um show não é gestão cultural. É falta de prioridade.
E, neste caso, a conta não fica apenas para a prefeitura. Fica para cada morador de Coxixola, que vê o poder público transformar calamidade em palco e emergência em espetáculo.
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