(Por Diego Lima) O Partido dos Trabalhadores sempre construiu sua trajetória com base em um discurso de coerência, identidade coletiva e enfrentamento a práticas tradicionais da política brasileira. Na Paraíba, no entanto, esse modelo parece atravessar um momento de desgaste evidente. Sob a condução da deputada estadual Cida Ramos, cresce a percepção de que o partido tem se afastado de suas origens para assumir uma lógica mais pragmática e, para muitos, contraditória.
Nos bastidores, a insatisfação não parte apenas de adversários. Um ex-presidente da legenda, ouvido sob reserva, relata que há um sentimento crescente de que o partido passou a ser conduzido com foco em interesses mais restritos, deixando em segundo plano a construção coletiva que historicamente marcou o PT. Essa leitura não surge do nada. Ela se sustenta em movimentos recentes que, dentro do próprio partido, vêm sendo interpretados como sinais de uma mudança de rumo.
A indicação de Neide Nunes para a Secretaria de Desenvolvimento Humano foi um desses episódios. A própria nomeada reconheceu publicamente a articulação política de Cida Ramos para sua chegada ao cargo. O gesto, que poderia ser tratado apenas como parte do jogo político, ganhou outra dimensão dentro do partido, sendo visto como mais um passo na consolidação de um grupo específico no comando das decisões.
A crítica se intensifica quando se observa a presença de pessoas próximas em espaços estratégicos do governo. Para setores internos, isso reforça a percepção de que o partido passou a adotar práticas que, durante anos, foram alvo de crítica por parte da própria legenda. O discurso permanece o mesmo, mas a prática começa a seguir outro caminho, e essa divergência é o que mais incomoda.
Esse cenário ganha ainda mais peso quando se observa a relação com Ricardo Coutinho. Principal liderança do campo de esquerda no estado, com histórico de gestão e forte capacidade eleitoral, Ricardo segue sendo peça central na disputa deste ano. Além disso, foi ele quem impulsionou a trajetória política de Cida Ramos. Mesmo assim, o que se vê hoje é um silêncio que chama atenção.
Até o momento, não houve uma declaração clara e pública de apoio por parte da presidente estadual do PT ao ex-governador. Em um ambiente político onde a unidade é determinante, essa ausência de posicionamento levanta dúvidas e alimenta interpretações sobre distanciamento ou cálculo político. Nos bastidores, há relatos de movimentos que não convergem plenamente para o fortalecimento de Ricardo, o que amplia a sensação de desalinhamento dentro do próprio campo progressista.
Os efeitos dessa condução já aparecem de forma concreta. O PT perdeu espaço na Assembleia Legislativa e hoje tem uma presença mais reduzida do que em outros momentos. Dentro da federação partidária, apresenta uma das menores nominatas para deputado estadual, evidenciando dificuldades de mobilização e organização. No cenário federal, a dependência de nomes com maior densidade eleitoral reforça ainda mais o peso de Ricardo Coutinho, o que torna o silêncio da direção partidária ainda mais significativo.
Diante desse conjunto de fatores, a manchete deixa de ser apenas uma provocação e passa a refletir uma leitura política que ganha força dentro e fora do partido. Quando decisões, articulações e posicionamentos começam a ser interpretados como parte de uma estratégia mais individualizada, o partido corre o risco de perder aquilo que sempre foi seu principal ativo, que é a identidade coletiva.
O que está em jogo não é apenas a condução de uma direção partidária, mas o próprio sentido do PT na Paraíba. Se o partido se distancia de suas bases históricas e se aproxima de práticas que antes combatia, a consequência natural é o enfraquecimento político e simbólico. E, nesse cenário, a dúvida que permanece é se ainda há tempo para reconectar discurso e prática ou se o processo de transformação já avançou além do ponto de retorno.
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