De promessa a enigma: Jhony Bezerra e a arte de mudar, cavando sua própria sepultura política

 Após sair das eleições de 2024 em Campina Grande com um desempenho expressivo e levando a disputa ao segundo turno, Jhony emergiu como uma nova liderança no cenário paraibano. Jovem, competitivo, com capacidade de mobilização — tudo indicava que ali nascia um projeto com fôlego.

Mas 2025 trouxe menos consolidação e mais coreografia.

Primeiro, a sinalização de candidatura a deputado estadual. Pouco depois, a ambição sobe de patamar: deputado federal, ainda pelo PSB. Até aí, dentro do script comum da política. O problema não foi a mudança. Foi a frequência.

Mesmo filiado ao PSB, começaram as conversas com o PV. Bastidores aquecidos, insatisfação ventilada, queixas sobre falta de apoio do governador e do próprio partido. O discurso era de desconforto.

Quando as negociações com o Partido Verde avançavam, o roteiro muda novamente. De forma surpreendente, Jhony anuncia filiação ao Avante. Não foi apenas troca de legenda — foi troca de tom. Vieram declarações públicas de alinhamento com Lucas Ribeiro, com Nabor Wanderley e, sobretudo, com João Azevêdo. Juras políticas, reafirmações de lealdade, garantias de que nunca houvera críticas ao governador.

Parecia pacificado.

Uma semana depois, postagem subliminar sugerindo rompimento com João. Convocação de coletiva para anunciar novo rumo. Clima de tensão instalado.

E então, mais um movimento inesperado: cancelamento da coletiva. Declaração de que ainda não sabe com quem ficará. Enquanto isso, nos bastidores, circula a informação de que estaria praticamente fechado com o grupo de Cícero Lucena.

Não é estratégia. É zigue-zague.

Na política, reposicionamentos fazem parte do jogo. O que causa estranhamento é a velocidade com que eles ocorrem — e a intensidade com que são desmentidos dias depois. O que hoje é convicção, amanhã vira dúvida. O que ontem era rompimento, hoje vira reflexão.

Essa dinâmica gera uma pergunta incômoda: qual é o projeto de Jhony Bezerra para 2026?

Se a intenção é disputar mandato proporcional, a lógica exige base consolidada, narrativa estável e alianças previsíveis. Deputado estadual ou federal depende de estrutura, palanque e confiança partidária. Oscilação constante não transmite segurança a prefeitos, lideranças regionais e coordenadores políticos.

Se o plano é algo maior no futuro — disputar novamente Campina ou se projetar para um cargo majoritário — a incoerência precoce pode cobrar um preço alto. Liderança se constrói com clareza de direção. Quando o eleitor começa a ter dificuldade para entender onde o político está hoje, a tendência é deixar de acompanhá-lo amanhã.

Em 2024, Jhony representou novidade. Em 2026, começa a representar imprevisibilidade.

E política é curiosa: o mesmo movimento que pode parecer habilidade de negociação pode rapidamente se transformar em imagem de leilão de apoios. Quando todos os grupos são cortejados ao mesmo tempo, nenhum se sente verdadeiramente escolhido.

2026 será um ano de polarização intensa na Paraíba, com disputas internas no campo governista e reorganização da oposição. Nesse cenário, quem não tiver posição clara corre o risco de ficar no meio do caminho — sem protagonismo em nenhum dos lados.

Jhony Bezerra ainda tem capital político. Mas capital também se desgasta.

Se continuar trocando de trilho antes de decidir o destino, pode descobrir que, na política, não é o adversário que antecipa a queda. Às vezes, é o próprio excesso de movimentos.

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