As declarações do vereador Marmuthe Cavalcante (Republicanos) soaram como um estalo de chicote no Palácio da Redenção. Segundo o parlamentar, o presidente da Câmara e do partido, deputado Hugo Motta, teria liberado os vereadores da legenda para votar em Cícero Lucena na disputa pelo Governo do Estado. A revelação escancara o que há muito se comenta nos bastidores: João Azevêdo perdeu o controle político e virou mero espectador do próprio governo.
A fala de Marmuthe é apenas a cereja do bolo da confusão. Hugo Motta e Nabor Wanderley, cada um cuidando do próprio quintal eleitoral, transformaram o Republicanos num balcão de conveniências. Enquanto isso, deputados do partido, com mandatos e vaidades de sobra, ratificam apoio à candidatura de Nabor ao Senado — e deixam o governador João Azevêdo e o vice Lucas Ribeiro no limbo político. A tal “aliança” entre PSB, PP e Republicanos, vendida como pacto de unidade, não passa de maquiagem: por trás da foto oficial, reina a guerra fria dos interesses.
Na prática, o que se viu na reunião do Republicanos foi um grito de independência disfarçado de neutralidade. O recado foi claro: o governador João Azevêdo pode preparar o paletó, porque nem dentro da própria base ele manda mais. Quando o chefe do Executivo deixar o cargo nas mãos de Lucas Ribeiro, a debandada será inevitável. Prefeitos e lideranças, cansados de mendigar atenção no Palácio, farão fila para pular no barco de Cícero Lucena — o novo farol das oposições.
Enquanto isso, Hugo Motta, travestido de aliado de Lula e mestre das negociações em Brasília, joga o jogo duplo. Com uma mão, acena ao governo federal; com a outra, arranca recursos para turbinar a milionária campanha do pai, Nabor Wanderley, rumo ao Senado. E, ciente da dificuldade quase bíblica de empurrar Lucas Ribeiro ao Governo, Hugo adota o “liberou geral”: cada um vota em quem quiser, desde que o projeto familiar prospere.
Em João Pessoa, João Azevêdo finge altivez e dispensa o apoio de Cícero Lucena para o Senado. Já Nabor, pragmático, aceita voto até de ex-inimigo. Em Campina Grande, o mesmo Nabor tenta se infiltrar no vácuo deixado pelo grupo Cunha Lima, que se bandiou para Veneziano.
No fim das contas, o cerco se fecha e o enredo é de tragédia anunciada: João Azevêdo caminha para terminar seu governo trancado numa sala ao lado de Ronaldo Guerra e Nonato Bandeira — isolado, sem povo, sem comando, e talvez até sem o garçom que servia o cafezinho de praxe.
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