Adriano Galdino
ultrapassou o limite da divergência política e entrou no terreno do desprezo. Ao chamar o pobre de direita de “ridículo” e “imbecil”, o presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba ofendeu cidadãos que têm exatamente o mesmo direito que ele de escolher um candidato. A declaração, feita nesta terça-feira (13), em Campina Grande, revela uma arrogância inaceitável: para defender Lula, Galdino resolveu diminuir a inteligência de quem não acompanha seu voto. Um representante do povo deveria sentir vergonha de tratar dessa maneira parte do povo que representa.
O contraste fica ainda mais constrangedor quando se olha para seu patrimônio. Na candidatura de 2026, Galdino declarou R$ 3.085.496,37 em bens, incluindo imóveis e aplicações financeiras. É um político milionário que apoia Lula e pretende ensinar ao pobre qual posição política sua renda permite adotar. Se ele pode ter patrimônio de milhões e defender um candidato de esquerda, por que alguém com pouco dinheiro não pode escolher a direita? A liberdade política vale para ambos. Mas, no raciocínio do deputado, o rico escolhe; o pobre que discorda merece insulto. Isso é paternalismo com uma dose brutal de soberba.
A pobreza não transforma ninguém em propriedade eleitoral de partido algum. Quem enfrenta dificuldades pode avaliar segurança, emprego, costumes, serviços públicos e experiências de governo antes de votar. Pode concordar com Galdino ou rejeitar inteiramente sua posição. Não precisa pedir licença. O discurso do deputado sugere que o pobre merece respeito enquanto confirma a escolha que fizeram por ele. Quando pensa diferente, perde até o direito de ser tratado como alguém capaz. É uma maneira revoltante de falar em defesa dos humildes enquanto se pisa na dignidade deles.
Galdino também questionou a compreensão bíblica dos evangélicos que apoiam Bolsonaro e afirmou que “Lula está mais perto de Cristo”. A declaração pretende emprestar autoridade religiosa à preferência eleitoral do deputado e diminuir a fé de quem discorda. Ele tem liberdade para explicar como suas próprias convicções orientam seu voto. Não tem autoridade espiritual sobre a consciência dos demais, muito menos para insinuar que um cristão compreende menos a Bíblia porque rejeita seu candidato. A presidência da Assembleia não lhe concede o poder de examinar a fé alheia e distribuir certificados de fidelidade a Cristo conforme o voto.
Sob a ótica da comunicação política, a fala é desastrosa. A ofensa pode arrancar aplausos de quem já está convencido, mas oferece ao eleitor atacado um motivo concreto para se afastar. Quem procura propostas recebe uma humilhação; quem espera respeito encontra uma tentativa de tutela. O efeito pode atingir tanto Lula, em cujo nome Galdino argumenta, quanto o próprio deputado. Ninguém demonstrou que esses insultos conquistarão votos. O risco de perder apoio, porém, é evidente: o cidadão pode esquecer uma promessa, mas guardar muito bem o momento em que um político o chamou de imbecil.
Galdino precisa aprender que mandato não compra obediência, patrimônio não confere superioridade intelectual e apoio a Lula não autoriza ninguém a fiscalizar a consciência cristã. Políticos devem apresentar razões para merecer o voto, não castigar verbalmente quem lhes nega concordância. O pobre não lhe deve submissão. O evangélico não lhe deve explicações sobre sua fé. E o eleitor não tem obrigação de tolerar um representante que confunde o privilégio de ocupar um cargo com o direito de humilhar quem pensa diferente.
