Governo indica diretor de consórcios do BB para presidência do banco, após renúncia de André Brandão

 Presidente do BB, André Brandão, entregou o cargo nesta quinta-feira (18/03). Programa de reestruturação de Brandão desagradou o presidente Bolsonaro Foto: Marcelo Camargo / Agência BrasilSessenta e quatro dias após o início de uma crise com o Palácio do Planalto — deflagrada pelo anúncio de um plano de reestruturação do Banco do Brasil (BB) — o presidente da instituição, André Brandão, pediu demissão. A proposta de fechar 361 unidades, entre agências, postos de atendimento e escritórios, e de um programa de demissão voluntária para 5 mil funcionários desagradou ao presidente Jair Bolsonaro, que ameaçou demitir o executivo. Há quase três semanas, Brandão já havia avisado ao governo que não pretendia permanecer à frente do banco.

Com a decisão do executivo, o Banco do Brasil terá o terceiro presidente em pouco mais de dois anos. O governo indicou  Fausto de Andrade Ribeiro, atualmente à frente do BB Consórcios, para o cargo. Brandão ficará no comando do banco até o fim do mês.

O executivo colocou o cargo à disposição em fevereiro, uma semana após Bolsonaro decidir pela troca no comando da Petrobras. Na ocasião, o presidente anunciou por redes sociais a indicação de um novo nome para o lugar de Roberto Castello Branco, após uma série de críticas à política da estatal para reajuste nos preços dos combustíveis. Brandão temia passar por desgaste semelhante.

Segundo interlocutores, foi pedido a Brandão que ficasse no cargo até ser encontrado outro nome para o BB. Em um primeiro momento, ele até pretendia ficar, diante do apoio do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Mas não houve manifestação pública de autoridades. Ao contrário, emissários de Bolsonaro disseram a ele que a decisão de trocar a presidência do banco já estava tomada.

Bolsonaro chegou a se reunir em janeiro com parlamentares do centrão, que se queixaram da perspectiva de fechamento de agências em suas bases eleitorais e indicaram que não apoiariam à época o nome do governo para a presidência da Câmara caso o plano fosse adiante.

Durante o período de crise, Brandão deu sinais de desconforto. Passou a permanecer a semana inteira em São Paulo com a família. Começou a preparar a saída e se despediu de auxiliares próximos. Segundo fontes, ele sabia que o processo de sucessão estava avançado.

A proposta de reestruturação do banco buscava equipará-lo a rivais do setor privado. O antecessor de Brandão, Rubem Novaes, já havia feito críticas diretas à burocracia no dia a dia da instituição. Brandão é um executivo com ampla experiência no setor privado. Antes do BB, estava no HSBC, onde ficou por 17 anos, além de ter trabalhado anteriormente no Citibank. Ele morava em Nova York e regressou com a família ao Brasil para assumir o cargo. Ficou apenas seis meses no banco.

Segundo especialistas, o temor é que a troca no comando resulte em aumento da ingerência do governo. Enquanto a Caixa viu seu papel aumentar com o pagamento do auxílio emergencial, o BB passou por sucessivos atritos entre seus dirigentes e a visão do presidente. As ações do banco acumulam queda de 16,9% na Bolsa este ano. A saída de Brandão, que era esperada pelo mercado, foi anunciada após o fechamento do pregão. Os recibos de ações (ADRs) em Nova York caíram 1,08%.

Indicado pelo governo para assumir o banco, Fausto de Andrade Ribeiro tem 52 anos e mais de 20 anos como executivo do banco. Está desde setembro no comando do BB Consórcios. Passou por várias gerências até chegar a uma diretoria, no ano passado.

Segundo fontes, ele tem boa relação com funcionários, mas não chegou a ser vice-presidente, o que seria o caminho normal de uma carreira no BB, antes de assumir a presidência. A decisão surpreendeu os vice-presidentes do banco.

Ribeiro é considerado politicamente de direita, o que teria ajudado a se cacifar para o cargo, segundo fontes. Ele teria o apoio do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Era a segunda opção entre os nomes preferidos pelo centrão, atrás de Paulo Henrique Costa, presidente do BRB. O nome dele perdeu fôlego após o envolvimento do banco com a compra de uma casa de R$ 6 milhões pelo senador Flávio Bolsonaro.

Para Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da agência de classificação de risco Austin Rating, um nome do mercado dificilmente aceitaria o cargo:

— Com as intervenções de Bolsonaro, o mercado se fecha para cargos públicos neste governo. Além de Brandão, há outros exemplos que chegaram ao governo com muitas expectativas, mas deixaram o posto sem terem cumprido seus principais objetivos.

O Globo

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